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Um dos obstáculos
mais complicados a ser encarado pela família pastoral está
relacionado com o cansaço ministerial. Pastores e pastoras,
suas esposas, seus esposos e filhos tem se deparado com este fato,
que ao meu ver, é inevitável dentro do círculo
ministerial. Em alguns casos, este cansaço parece fatal,
causando a desmotivação e o desligamento do próprio
pastor do seu ministério, enquanto que em outras situações,
permanece o pastor no ministério, sem, no entanto, a sua
família.
Ao longo dos meus quinze anos de ministério já dividi
com a minha família estes momentos. O problema não
estava em mim, ou em minha esposa ou nos meus filhos. Quantas foram
as vezes em que carregamos a culpa diante daqueles momentos, pensando
que estávamos sendo vítimas de "fraqueza espiritual".
Contudo, no decorrer destes anos tenho percebido que centenas de
colegas de ministério compartilham comigo do mesmo fato.
Recordo-me do dia em que tive a oportunidade de visitar um colega
cujo trabalho estava marcado pelos sinais de um ministério
de êxito. Sua igreja estava cheia, havia ministérios
muito bem organizados e liderados por uma equipe bastante competente.
A igreja mantinha um notável ministério de engajamento
social na cidade e, apesar de tudo, o meu colega confidenciou, "Eu
e minha esposa estamos cansados de tudo isso." Perguntas inevitáveis
me vieram à mente e eu e minha esposa temos ainda tentado
respondê-las. Perguntas que você e sua família
estão certamente fazendo. No que consiste este cansaço
ministerial? Quais os fatores causadores deste esgotamento ministerial
na família pastoral? Quais são as possíveis
conseqüências e como lutar contra elas?
Ao meu ver, poderíamos definir cansaço ministerial
como sendo um esgotamento, um estado de fadiga e desmotivação
para com uma causa para a qual você entregou a sua vida, seus
talentos e seu tempo. A expressão chave nesta definição
é desmotivação para com uma causa. A verdade
mais óbvia em relação à desmotivação
é que ela acontece em circunstâncias em que os resultados
finais não justificam o empenho da dedicação.
Ouvi de um pastor amigo que vivia um situação de cansaço
ministerial, pastoreando uma igreja média, a seguinte palavra:
"Valter, não estou cansado de Deus e nem da vocação,
mas da igreja." Cada vez mais ouço dizer do cansaço
dos heróis da igreja evangélica brasileira. Culpá-los?
Dizer que estão fraquejando? Não, eu não creio
que esta seja uma avaliação justa. Eles e suas famílias
estão simplesmente cansados e, talvez, cansados do que viram
e do que sofreram em função das cargas desnecessárias
que lhes impuseram.
O quadro até aqui exposto, nos conduz a adentrar na área
dos fatores causadores deste esgotamento ministerial que apesar
de possuirem fatores internos ligado à própria família
do pastor, também tem a ver com os fatores externos causados
pelo ambiente de trabalho.
Portanto, as causas deste cansaço ministerial são:
1. O confronto com os poderes de uma estrutura arcaica. É
crescente o número de pastores que pertencem à uma
geração de leitura bíblico- teológica
contemporânea mas que ministram em igrejas calcificadas e
desbotadas pela desatualização. É inevitável
o choque, a tensão e consequentemente o cansaço. Pessoalmente,
creio que mudanças podem acontecer em estruturas assim, mas
o preço para o líder é alto e precisamos estar
conscientes de que o desgaste da família pastoral é
algo muito provável. Somente na física é que
forças opostas se atraem. Na vivência teológica,
os atritos decorrentes do gerenciamento de forças (visão
de mundo, mentalidade, concepção de vida) opostas
é altamente desgastante e cansativo. A consciência
deste fato ajuda a discernir e interpretar as nossas reações
e nortear as nossas opções de futuro ministerial.
2. A pressão que as pessoas colocam sobre a família
pastoral em termos de jogar sobre ela uma responsabilidade do tipo
"dois pesos e duas medidas". O que queremos dizer com
isto é que, em vários níveis as pessoas da
igreja estabelecem regras para a família pastoral que não
estabelecem para si mesmas. É muito provável que alguém
julgará com critérios diferentes a ausência
do filho do pastor que resolveu ir à uma outra atividade
ao invés de estar presente na reunião dos jovens no
sábado à noite. O mesmo não aconteceria com
qualquer outro jovem da igreja. Nestes anos de ministério,
temos observado as pessoas com as posturas mais contraditórias
possíveis. Lembro-me de um dia em que eu e minha família
não pudemos estar presente no aniversário de uma determinada
pessoa que era membro da igreja. A comemoração deste
aniversário entrou em choque com uma programação
já marcada antecipadamente. Alguém muito próximo
a este aniversariante fez severas críticas a mim e à
minha família, dizendo que fomos omissos como líderes
da igreja. Dois meses depois, este aniversariante seria responsável
por liderar uma determinada programação na igreja.
No dia, eu e a minha família estávamos presentes e
a pessoa que havia feito o comentário, cobrando de nós
uma postura em relação àquela pessoa que dizia
ser seu grande amigo, desta vez não estava presente para
prestigiá-lo, considerando que seria a primeira experiência
de seu "amigo" à frente de um trabalho na igreja.
Razão: foi passear. Eu e minha esposa comentamos um com o
outro o fato e, humanamente falando, pela primeira vez percebemos
como isto era desumano.
Eu não tenho dúvidas que alguém possa afirmar
que isto seja uma tremenda tolice. Caro leitor, eu queria dizer
a você que uma gigantesca somatória de exemplos simples
como este perfazem um grande total na vida da família pastoral.
Meu filho mais velho, 11 anos, perguntou há poucos dias para
mim por que é que as pessoas exigiam de nós algo que
eles não exigiam de si mesmos. Ele demonstrou cansaço
deste sistema de "fazer religião". Como a minha
família, outras famílias de pastor e pastoras tem
dado respostas diferentes a este tipo de estímulo. Uns, inclusive
respondem mais radicalmente (filhos envolvidos com drogas, revoltados
com crentes, desinteressados da igreja, etc). Sabe, é muito
simples dizer que o pastor ou pastora não souberam administrar
a sua casa. Esta idéia é, no mínimo, uma tentativa
de não assumir a responsabilidade de que a igreja, em alguns
casos, é o agente de tensão na família pastoral.
Particularmente, não espero dos meus filhos nada além
de um comportamento cristão e humano; não os oriento
para corresponderem às expectativas das demandas culturais
da igreja evangélica, mas para que correspondam ao princípio
de estarem convertidos para o Senhor e o compromisso do testemunho
cristão. Finalmente, não os sobrecarrego com a minha
agenda pastoral.
Uma outra causa refere-se à idéia presente de que
pastor não pode ter amigos. Infelizmente, tenho de admitir
que há pastores que assim também pensam. Ouvi de uma
pessoa que falava em seu estudo sobre as características
da igreja evangélica brasileira, que há lideranças
de igrejas que fazem questão de mudar os seus pastores freqüentemente
na tentativa de impedir que estes criem laços de amizades
dentro das comunidades que pastoreiam. Ironicamente, é também
intrigante notar que aqueles que no seio da comunidade se levantam
para fazerem suas observações sobre as "preferências"
do pastor nas amizades pessoais, são exatamente as mesmas
pessoas que desejariam estar próximas para manipular esta
amizade em algum tipo de benefício pessoal. É algo
meio semelhante ao poder de influência que o Paulo César
Farias tinha no governo Collor. Guardando as devidas proporções,
observamos que este tipo de influência não está
reservada apenas ao meio político.
Quando olhamos para a vida de Jesus, o pastor por excelência,
observamos que um dos fatos marcantes de seu ministério foram
os relacionamentos que Ele construiu sobre o amor e a afetividade.
Aliás, a própria doutrina da Trindade caracteriza
esta dimensão de relacionamento, testemunhando que as três
pessoas, Deu-Pai, Deus-Filho e Deus-Espírito se interagem
sob a dimensão da amizade. Jesus chamou aos seus discípulos
de amigos. Preferiu esta palavra ao invés da palavra servos
por considerar que amigo se tornou palavra-símbolo, sacramento,
do novo relacionamento a partir da história da redenção.
Como sacramento, a palavra amigo evoca saudades, vontade de rever
novamente, compromisso de cuidar. Idéias e sentimentos que
a palavra servo jamais evocaria. Não há dúvidas
que este modelo precisa ser considerado por pastores, líderes
e membros de igrejas. No caso dos pastores, a atitude mais coerente
a ser tomada seria considerar de foro íntimo as suas opções
no que diz respeito às amizades. Acima de tudo, trata-se
de uma questão de privacidade manter os amigos que tem e
escolher os que quer. Além disso, é salutar e humano
que estes relacionamentos amigos prezem por uma pauta de assuntos
e programas para além daqueles próprios da igreja,
o que funciona como um exercício de prevenção
para este cansaço ministerial. Tenha sua roda de amigos como
companheiros do peito, reservando à amizade o prazer de estar
numa mesa ou saindo juntos apenas para desfrutar do prazer de estar
junto com alguém com quem se simpatiza. Esta tem sido uma
prática que tem contribuído para a saúde da
alma da nossa própria família.
É óbvio que estas causas acabam por refletir de alguma
maneira na vida da família pastoral e o sentimento de solidão
é uma das conseqüências. É irônico
afirmar que a família que possui o privilégio de se
relacionar com o maior número possível de pessoas
dentro de uma específica comunidade de fé, também
possa viver a realidade de se sentir só. Não diríamos
que trata-se apenas de um sentimento de solidão, mas a verdade
é que a família do pastor vive também a realidade
de estar só. Parte desta realidade decorre da dificuldade
que o pastor e sua família tem em compartilhar com as pessoas
suas própria pressões.
Do fator solidão se depreende a questão da confiança.
Para falar mais claramente, o fato é que há uma crise
tremenda de confiança por parte da família pastoral.
Mais do que céticos, o pastor, a pastora e sua família
acabam por iniciar um processo de isolamento, "santo sarcasmo"
e "imaculada ironia" no que diz respeito à confiança
nas pessoas. São tantos os golpes, decepções
e desencontros que é praticamente impossível não
se iniciar um mecanismo de "feedback"(reação,
retorno) positivo, ou seja, confiança quebrada alimenta o
sistema gerando desconfiança velada. A pergunta que fica
é: quem no meio eclesiástico há de cuidar da
família pastoral? Não são muitas as opções
para quem necessita total segurança em sua confidência.
Nesta questão, não se trata apenas do pastor ou da
pastora, mas também de sua esposa, seu esposo e filhos. Você
já imaginou o desastre que seria se um deles resolvesse abrir
a alma escolhendo a pessoa errada?
Deixaríamos uma lacuna neste artigo se não considerássemos,
por fim, algumas idéias para lutar contra este cansaço
ministerial.
1. É de fundamental importância ter a consciência
de que as demandas das pessoas e do seu ambiente de trabalho nada
tem a ver com a vocação pastoral. Isso é "mania"
de um sistema eclesial doentio e desvirtuado. Particularmente, já
não dou mais atenção ao chavão de alguns
"conselheiros", "é meu irmão isso faz
parte da vocação".
2. É preciso constatar a necessidade de uma eclesiologia
que trate das responsabilidades da igreja para com os seus líderes.
O que se constata é que na relação família
pastoral e igreja as responsabilidades tem sido abordadas apenas
numa via de mão única. Fala-se muito da responsabilidade
do líder para com a igreja e quase nada da responsabilidade
da igreja para com o pastor e sua família e a sobrevivência
da vocação. Não estamos desconsiderando aqui
a crise de integridade pastoral; no entanto, é tempo de alertar
que há um outro aspecto da questão, ou seja, o fato
de que a família pastoral também precisa ser honrada
e cuidada. Sem dúvida alguma, felizes são aqueles
pastores, pastoras e respectivas famílias que são
muito bem cuidados por algumas igrejas. Mas triste e aflito são
os pastores, as pastoras com um coração cheio da graça
de Deus e que apesar disso não são honrados pelo "povo
de Deus."
Por fim, há duas atitudes que o pastor e sua família
podem tomar.
1. Crie a sua própria privacidade. Cada família deve
procurar estabelecer isto de acordo com a sua própria realidade.
Evite que a agenda da igreja interfira na liberdade de escolha de
sua família.
2. Se você e sua família está em crise, admita
a necessidade de um acompanhamento. Procure alguém de confiança
com quem você pudesse ser confidente. Ou quem sabe, você
pode encontrar um ministério, como a MAPEL, que tem como
um dos seus propósitos o de encorajar a família pastoral.
O Pr.
Valter Moura é pastor presbiteriano há 15 anos. Ligado
à Presbyterian Church in America, trabalha num projeto de
plantação de igreja em Danbury, CT, Estados Unidos.
É casado com Leides e tem três filhos, Filipe, Bruno
e Guilherme).
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