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UNIDOS SOB A MÃO DE CRISTO
Por Marcelo Dutra
 

O rev. Antonio Elias e sua esposa Maria José contam os segredos de um casamento cinqüentenário e de como manter a unidade da família pastoral.

Num tempo em que separações de casais elares desajustados são coisas comuns - inclusive, dentro da Igreja -, os testemunhos do reverendo Antonio Elias, de 88 anos, e de sua esposa Maria José, de 77, impressionam. Casados há 49 anos, eles construíram uma família que já lhe deu quatro filhos, quatro netos, muitas preocupações e, acima de tudo, a alegria de constatar que a mão de Deus esteve sobre eles durante todo esse tempo. A união um com o outro e com Deus é tão intensa que nem se percebe limites entre o ministério do marido e a vivência familiar - o lar do casal parece uma extensão da Igreja Presbiteriana Betânia, de Niterói (RJ), onde o veterano homem de Deus dá continuidade à sua carreira pastoral, embora já esteja jubilado.

Paulista de Catanduva, Antonio Elias é de um tempo em que pregar o Evangelho não era simples como hoje. Além das dificuldades da época - as viagens, muitas vezes, eram feitas em lombo de cavalo -, havia intolerância contra os crentes, motivada principalmente pelo fanatismo religioso que imperava nos rincões onde ele ia falar de Jesus. Numa daquelas jornadas, em 1946, Elias estava hospedado numa pousada em Teófilo Otoni, interior de Minas Gerais. Alguns podem achar coincidência, mas naquele mesmo dia Maria José saiu da cidadezinha mineira de Pedra Azul, onde morava, para visitar o filho recém nascido de seu irmã de criação que vivia em Teófilo Otoni. Por um desses "acasos" que os crentes preferem atribuir à vontade divina, Maria José foi para a mesma pousada onde estava o pastor. Eles se conheceram, mas durante 15 dias, pouco se falaram, apenas trocaram impressões sobre livros cristãos. Ela foi embora, mas Elias pediu para que ela deixasse seu endereço, a fim de que lhe mandasse mais alguns livros. Dali a algumas semanas, Maria José recebeu o primeiro livro, O manto de Cristo.

Durante três anos eles trocaram 83 correspondências, nas quais o pastor indicava outros livros de cunho evangelístico e dava orientações para que ela, apesar das proibições dos padres da região, lesse a Bíblia. Durante todo esse tempo, Maria José lutava contra essas descobertas, uma vez que sua família era católica - um dos irmãos era bispo e ela mesma fora filha de Maria e tinha estudado em colégios católicos. As cartas acabaram deixando de lado a teologia, e eles acabaram trocando confidências e sonhos. Naqueles três anos, se viram apenas três vezes, e na última ela entregou-se a Jesus. Daí para o noivado e casamento, três meses depois, foi um pulo.

Maria José conta que as dificuldades que os dois passaram nestes quase cinqüenta de vida comum foram muitas: "Por diversas vezes vimos a mão do Senhor vindo em nosso auxílio, quando éramos missionários no interior. Houve época em que procurávamos algo na dispensa e, como não tínhamos nada, esperávamos somente a providência divina", recorda. Mas nenhuma dificuldade pode separa-los, e hoje Antonio Elias e Maria José continuam unidos, com a satisfação de quem pode dizer que eles e sua casa servem ao Senhor. FAMÍLIA PASTORAL procurou o casal para conhecer os segredos que mantêm a unidade da família há tanto tempo. Um desses segredos pôde ser constatado na entrevista: os dois fizeram questão de responder juntos às mesmas perguntas do repórter. Eles analisam a família cristã e a igreja, falam das dificuldades e das vitórias e comentam as dificuldades que um homem de Deus encontra para conciliar a igreja e o lar. Afinal, experiência eles tem de sobra. Parte dessa vivência é o tema do livro "E a família do pastor?" que Maria José está terminando e que conta, sob a ótica de quem mais entende do assunto - uma esposa de pastor - as experiência que viveu e outras tantas aprendidas com centenas de famílias. Vai ser um verdadeiro Raio X das dúvidas, dores, problemas e soluções que acontecem dentro da casa de um homem que, apesar de pertencer a Deus, também é de carne e osso: o pastor.

Quando surgiu a idéia de escrever esse livro?
Maria José - Eu já havia escrito um artigo sobre o papel da esposa no ministério do marido, falando de experiências minhas e de coisas que a gente imagina sobre a função da esposa. Eu também participei de um congresso sobre esposas de pastor em Poços de Caldas (MG), há cerca de dois anos e tive oportunidade de fazer duas mensagens sobre o relacionamento da família do pastor e a igreja. Abordei vários problemas, e o principal deles é a cobrança da igreja, ou seja, a interferência da igreja na criação dos nossos filhos. Queriam que eu contasse experiências, e assim fiz. Embora nosso relacionamento com a igreja fosse muito bom, já tivemos experiências ruins por parte de alguns membros. Isso é normal. Há casos, até, de igrejas cuja falta de sensibilidade é tamanha que forçam a esposa de pastor a assumir cargos apenas porque estes estão vagos. Quando vim para Niterói, em 1958, me deram o cargo de professora das criancinhas, porque este era o cargo disponível, quando eu não tinha a menor idéia do que fazer. Apesar de todo o carinho que as igrejas, normalmente, tem pela família pastoral, às vezes falta sensibilidade.

Por que acontecem problemas na família pastoral?
Antonio Elias - O homem de Deus tem que ter em mente que suas prioridades devem ser, nesta ordem: Deus, família e a igreja. Creio que muitos erram, colocando a igreja acima da família. Afinal, a igreja existe por causa do homem, e não o homem por causa da igreja. É preciso cuidado, tempo, zelo e dedicação para com a família. Tenho visto muitos obreiros fazendo grandes coisas para o Reino de Deus, mas enfrentando sérios problemas dentro de casa.

Como os senhores, com tanta experiência, vêem as separações de casais motivadas pelo fato de o marido estar envolvido demais com o ministério, com os problemas da igreja, às vezes, sacrificando o próprio casamento?
Antonio Elias - Há muitos casos assim. E a distância que algumas esposas tomam do ministério acaba criando um problema enorme na família e também no ministério, porque ninguém tem condições de pregar o evangelho com um problema desse dentro do lar. Eu já ouvi muitas histórias, nessas caminhadas pelo Brasil. Algumas esposas de pastor já se aconselharam comigo, e uma delas reclamou que, quando havia se casado, seu esposo era professor, e a vida que levavam era bem diferente.

Maria José - A frase que já ouvimos muitas vezes é: "Não me casei com um pastor."

Antonio Elias - Aquela irmã me disse que não tinha a menor vocação para a vida eclesiástica. Apesar de ser crente, ela não gostava das reuniões e nem daquele ambiente no qual vivia envolvida.

E o que dizer a uma pessoa nessa situação? Como os senhores a aconselhariam?
Maria José - É uma situação muito difícil, pois eu vejo a mulher diante daquela plano de Deus de ser uma ajudadora, uma auxiliadora. Eu tive uma benção muito grande, pois comecei a minha vida de crente como esposa de pastor. Mas eu acho que Deus me preparou para isto.

Antonio Elias - Se é ajudadora, a mulher tem que de estar preparada para viver situações que, muitas vezes, não vão lhe agradar. Além do mais, se a mulher de fato ama ao Senhor, ao seu marido e à igreja, terá forças para suportar as contrariedades. Amor, desprendimento, tolerância, renúncia, tudo isso aparece se a pessoa de fato quer servir ao Senhor.

Maria José - Se a mulher se casa com um homem que depois vem a se tornar pastor, o ajuste pode acontecer ou não. Caso ela apoie aquele ministério, e queira cooperar, não haverá problemas, mas se ela rejeita aquela vida - muitas vezes, feita de sacrifícios - a coisa fica muito difícil. Ai, só Deus mesmo.

Como é a criação dos filhos de pastores na igreja?
Maria José: Isso me faz lembrar uma historia engraçada. Quando meus filhos mais velhos, Lúcio Antonio e Lucinha, tinham respectivamente 10 e 8 anos, eles chegaram para mim e disseram: "Mamãe, nos escrevemos um livro e queríamos vende-lo para a senhora". Eu disse "tudo bem, eu compro". Paguei vinte cruzeiros e fiquei com o livro, escrito a lápis em papel rascunho, cujo titulo era Filho do Pastor. Tinha quatro capítulos e eles disseram logo na apresentação que era o primeiro livro da serie Elias. (em alusão ao sobrenome da família). Falavam só sobre filhos de pastor fazendo perguntas, e eles mesmos respondendo. Eles perguntavam se os filhos de pastor podiam mentir, e ai logo respondiam que não. Mas não porque eram filhos de pastor, e sim, porque eram cristãos. E ainda citavam o Evangelho de João! Eu achei aquilo muito curioso. E demonstrou logo para mim uma preocupação com a vigilância de certos membros da congregação para com eles. Anos mais tarde, contei essa experiência em congressos e ela atraiu a atenção de outros membros de famílias pastorais. Ai, resolvi fazer um questionário, para que as pessoas respondessem nos congressos onde vou e direcionei algumas perguntas para a mulher do pastor, pois grande parte dos problemas da família pastoral advêm do fato de que algumas mulheres de pastor não foram vocacionadas para o ministério, como seus esposos.

Como o pastor e sua esposa devem fazer para envolver os filhos no ministério do casal?
Maria José: Para nos, o envolvimento com os filhos foi uma coisa espontânea e muito forte. Nos sempre valorizamos muito nossos filhos. No que diz respeito a igreja, a gente deixava muito claro que nossos filhos eram como qualquer criança, tinham defeitos, mas nos estávamos ao seu lado. Um dia, alguém se queixou de nossos filhos para meu marido, mas ele respondeu: "Olha, eu estou do lado dos meus filhos. Se vocês me aceitarem com meus filhos do jeito que eles são, estarei bem aqui; se não, podem me dispensar do trabalho da igreja". A cobrança sobre filhos de pastores e muito grande, coisas como: "Você e filho do pastor, não pode fazer isso". Muitas vezes, a igreja quer determinar a maneira como a família pastoral deve educar seus filhos. Nos enfrentamos este problema muitas vezes. Na época dos Beatles, um dos nossos filhos deixou o cabelo crescer- coisa própria da idade.

Pois bem, implicaram com ele porque era filho do pastor. E aquilo era coisa de rapaz, depois ele cresceu e nem ligou mais para cabelo grande. Em outra ocasião, uma pessoa da igreja disse que ia dar um pente para meu filho, que usava o cabelo encaracolado. Aquilo o perturbou tanto, que ele não queria mais ir a igreja. Em casa, nós explicávamos que havia pessoas mais intolerantes, mas nunca falamos mal da igreja para eles. É assim que se ganha um filho: compreendendo, ensinando, conversando e, principalmente, estando ao lado dele.

E bater nos filhos, ajuda?
Maria José: Eu acho que não. No nosso caso, sempre procuramos conversar e explicar as coisas para eles. É claro que, às vezes, demos umas palmadinhas. Hoje em dia, as crianças estão muito espertas. Bater nos filhos ou coloca-los de castigo já não resolve. É preciso conversar com eles.

Antonio Elias: Outro dia, minha netinha, que tem menos de um ano, ficou aborrecida com alguma coisa e deu um tapa na cara do pai. Na mesma hora, meu filho deu-lhe uma palmada bem dada - no lugar certo, e lógico (risos). Nessa idade, ainda não existe dialogo. Mas o que a gente tem percebido é que a maioria dos pais não tem paciência. Então apelam para a intimidação, que não resolve e só agrava o problema.

Por que existem filhos de pastores que são rebeldes e revoltados?
Antonio Elias: Isso acontece porque, no lar, muitas vezes não há companheirismo. A criança se sente isolada. Há pastores que se acham muito ocupados para dar atenção ao filho, ou não atendem a seus pedidos, por entender que um homem de Deus não pode participar de determinadas coisas. Certa vez, meu filho queria ir assistir a um jogo de futebol e insistiu para que eu fosse junto. Eu não ligava para aquilo, mas para fazer sua vontade, fui. Como eu sou "das antigas" e entendo que o domingo é o dia do Senhor, acertamos para ir durante a semana. Lá pelas tantas, saiu uma briga tremenda no meio da torcida. Ele ficou assustado, e aí me chamou para ir embora, nem quis ficar ate o final. A criação que recebeu foi o suficiente para perceber que aquilo não era lugar para ele. Eu só sei que, depois daquela, ele nunca mais quis ir. Mas foi importante para ele eu te-lo acompanhado. Outra coisa que pode revoltar nossos filhos são coisas erradas que acontecem dentro da igreja, por causa de uma ou outra pessoa. Nesses casos, é preciso mostrar que, como todo grupo humano, a igreja tem seus defeitos. Dinheiro é outro problema. Os pastores nem sempre tem uma situação confortável para oferecer a família. Em épocas mais apertadas, as vezes meus filhos se queixavam, mas eu os fazia entender que havia muitos filhos de médicos, engenheiros ou advogados que tinham situação pior do que a deles, que eram filhos de pastor. Em todos esses casos, é fundamental ter paciência e compreender os filhos.

Mas não existem certas coisas que as crianças são incapazes de compreender?
Maria José: Nós sempre procuramos compartilhar com nossos filhos as situações que vivemos. No tempo em que éramos missionários, enfrentamos muitas dificuldades financeiras. O dinheiro não dava de jeito nenhum, mas nós nunca reclamamos diante de nossos filhos. Sempre compartilhamos com eles nossas dificuldades, e também as vitorias que Deus nos dava. Certa vez, um irmão da igreja chegou lá em em casa trazendo uma mala enorme, e disse que viria um hóspede para nossa casa. Nós nos entreolhamos apavorados, pois o que tínhamos nem dava para nós. Ele deixou a mala no meio da sala e, antes de ir embora, disse que era uma brincadeira e que aquilo era um presente para nós, que o Senhor havia mandado. Quando nos abrimos, foi uma festa. Havia muito mantimento, inclusive doces e compotas que nós nunca poderíamos comprar para nossos filhos. Então, junto com eles, nós oramos e demos graças a Deus.

Depois de tanto tempo de convivência em família e na presença de Deus, dei para ensinar uma formula de sucesso?
Antonio Elias: Em todas as coisas, e preciso equilíbrio. Se a família do homem de Deus buscar ao Senhor, tendo momentos de comunhão, como por exemplo o culto doméstico, terá vitórias. Temos visto muitos irmãos que invertem as verdadeiras prioridades. Não podemos nunca nos esquecer de que, abaixo de Deus, está a família, e depois, a igreja. Tive muitas lutas em minha vida, mas sempre procurei ver as coisas deste modo. E, posso dizer isso para a glória do Senhor, Ele nunca me abandonou.

Maria José: Olhando para trás, a gente vê um Deus que cumpriu suas promessas ao longo desses quase 50 anos, que não falhou. Na realidade, Ele é um Deus vivo e presente.

 


 

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